quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A Mãe dos Devas





"Possa a Deusa Saraswati,



que é como a lua colorida de jasmim,



e cuja guirlanda branca e pura é como as gotas congeladas do orvalho;



que é adornada em um radiante traje branco,



em cujos belos braços descansa a veena,



e cujo trono é um lótus branco;



que é rodeada e respeitada pelos Deuses, proteja-me.



Que a Senhora possa remover completamente minha letargia, lentidão, e ignorância."





Assim como 'Diwali' – o festival da luz – é para Lakshmi, deusa da riqueza, e 'Navaratri' é para Durga, deusa da força e poder, Vasant Panchami é para Saraswati, a deusa do conhecimento e aprendizado. Ela representa o fluxo livre de sabedoria e consciência. Ela é a mãe dos Vedas, e cantos a ela, chamados 'Saraswati Vandana' geralmente começam e finalizam as lições védicas.

O festival é celebrado todo ano no quinto dia da quinzena brilhante do mês lunar de Magha — o dia chamado 'Vasant Panchami' (aqui, 11 de fevereiro). Hindus celebram esse festival com grande entusiasmo, e templos e domicílios são cheios de atividades nesse dia. Esse 'Panchami' é também conhecido como o Dia de Saraswati, porque acredita-se que foi nesse dia que a deusa nasceu.

Saraswati, a deusa da sabedoria, arte e música é a filha de Lorde Shiva e da Deusa Durga. Acredita-se que a deusa Saraswati dota os seres humanos com o poder da fala, sabedoria e aprendizado. Ela tem quatro braços que representam os quatro aspectos a personalidade humana no aprendizado: mente, intelecto, alerta and ego. Ela leva as escrituras sagradas em uma mão e um lótus — o símbolo do verdadeiro conhecimento — na segunda. Com as outras duas mãos ela toca a música do amor e da vida em um instrumento de cordas chamado veena. Ela está vestida de branco — o símbolo da pureza — e sua montaria é um cisne branco que simboliza Sattwa Guna ou pureza e discernimento. Saraswati é também uma proeminente figura na iconografia Budista — a consorte de Manjushri.

Dá-se especial importância à cor amarela no Vasant Panchami. Nesse dia, Saraswati é vestida em roupas amarelas e adorada. As pessoas preferem usar amarelo nesse dia sagrado. Doces de tons amarelados são distribuídos entre parentes e amigos. Algumas pessoas alimentam os Brahmins, outras fazem Pitri-Tarpan (adoração aos ancestrais) e muitas adoram Kamadeva, o deus do amor, nesse dia.

No entanto, o aspecto mais significativo desse dia é que nele são ensinadas as primeiras palavras para as crianças, pois esse é considerado um dia auspicioso para começar a ler e escrever. Instituições educacionais organizam orações especiais para Saraswati. O grande guru indiano Pandit Madan Mohan Malviya lançou os alicerces da mundialmente reconhecida instituição acadêmica de Kashi Hindu Vishwa Vidyalaya no Vasant Panchami.

Pessoas santificadas e individuos inclinados ao progresso espiritual dão grande importância à adoração da deusa Saraswati. Somente pessoas educadas e homens de princípio adoram a deusa Saraswati para iluminação espiritual. Na opinião deles, não pode haver distinção entre o rei e o erudito ou avançado espiritualmente. O rei é honrado em seu reino, enquanto o erudito é respeitado ou adorado ao redor do mundo.

O Hinduismo leva em conta um significado especial das estações e as entrelaça com festivais religiosos. Durante Vasant Panchami, as estações sofrem mudanças e a primavera é anunciada. As árvores mostram novos brotos e a nova vida é evidente nas florestas e campos. A Natureza decora as mangueiras com novos botões, o trigo e as plantações se animam com os sinais de vida nova.

Vasant Panchami pe um festival cheio de significados religiosos, sazonais e sociais e é celebrado por Hindus em todo o mundo com vivacidade e uma nova sensação de otimismo. Os primeiros sinais do próximo festival de Holi — o festival das cores — também se manifestam em Vasant Panchami.

http://hinduism.about.com/library/weekly/aa020700.htm?nl=1



terça-feira, janeiro 15, 2008

Vaca de divinas tetas


Assim como a ovelha é sagrada para o Cristianismo, a vaca é para o Hinduísmo. Krishna era um vaqueiro e o touro é descrito como o veículo de Shiva. Hoje, a vaca já quase que se tornou um símbolo do hinduísmo.


Vacas, Vacas Em qualquer lugar!

A Índia tem 30 por cento do gado mundial. Há 26 raças diferentes de vaca na Índia. A corcova, longas orelhas e rabo espesso distinguem as vacas indianas. Lá as vacas estão em toda parte! Como a vaca é respeitada como um animal sagrado, elas podem perambular sem riscos, e elas estão bastanta acostumadas ao tráfego e ao ritmo da cidade. Assim, você pode vê-las passeando pelas ruas das cidades, pastando despreocupadamente na beira das estradas e ruminando legumes jogados fora na rua por vendedores. Vacas ‘sem-teto’ também são ajudadas pelos templos, especialmente no sul da Índia.


Conserve a Vaca

Ao contrário do Ocidente, onde a vaca é amplamente considerada como nada melhor do que hambúrgueres ambulantes, na Índia, a vaca é considerada um símbolo da terra - porque dá muito sem pedir nada em troca. Devido à sua grande importância econômica, faz sentido proteger as vacas. Dizem que Mahatma Gandhi tornou-se um vegetariano porque sentiu que as vacas sofriam maus-tratos. O respeito pela vaca é tanto que os índianos tinham oferecido para abrigar milhões de vacas em espera para abate na Grã-Bretanha, como resultado da crise na produção de carne de bovino em 1996.

Culto à Vaca

Embora a vaca seja sagrada para os hindus, ela não é exatamente adorada por todos como uma divindade. No 12 º dia do 12 º mês do calendário hindu, uma ritual à vaca é realizado no palácio de Jodhpur.


Templos do Touro

O touro Nandi, veículo de Lord Shiva é considerado o símbolo do respeito por todos os bovinos machos. O local sagrado de Nandi em Madurai e o templo de Shiva em Mahabalipuram são os mais venerados santuários bovinos. Mesmo não-hindus são autorizados a entrar no Templo do Touro, construído no século XVI, em Bangalore. O Templo Vishwanath de Jhansi, construído em 1002, também tem uma grande estátua do Touro Nandi.


História

A vaca foi venerada como a deusa mãe nas antigas civilizações do Mediterrâneo. A vaca se tornou importante na Índia, em primeiro lugar no período Védico(1500 - 900 AC), mas apenas como um símbolo de riqueza. Para o homem Védico, as vacas eram "o verdadeiro substrato dos bens da vida".

Símbolo do Sacrifício

As vacas formam o núcleo dos sacrifícios religiosos, pois sem ghee ou manteiga, que é produzido a partir de leite de vaca, nenhum sacrifício pode ser realizado.
No Mahabharata, temos Bhishma dizendo: "Vacas representam sacrifício. Sem elas, não pode haver sacrifício... Vacas são sinceras em seu comportamento e delas fluem sacrifícios... e leite e coalhada e manteiga. Por isso as vacas são sagradas..." Bhishma também observa que a vaca atua como um substituto do leite materno, fornecendo leite aos seres humanos para toda a vida. Assim, a vaca é realmente a mãe do mundo.

Vacas como presentes

De todos os presentes, a vaca ainda é considerada o mais alto na Índia rural. Os Puranas dizem que não há dom mais sagrado do que o dom de vacas. "Não há um dom que produza mais abençoado mérito". A Rama (herói do épico Ramayana) foi dado um dote de milhares de vacas e bois quando ele se casou com Sita.

Estrume de Vaca!

As vacas também são consideradas purificadoras e santificadoras. O estrume de vaca é um desinfetante eficaz e freqüentemente utilizado como combustível em vez de lenha. Nas escrituras, encontramos o sábio Vyasa dizendo que as vacas são os mais eficazes de todos os purificadores.

Nenhuma carne por favor!

Já que a vaca é considerada um útil presente de Deus para a humanidade, consumir carne bovina é considerado sacrilégio para os Hindus. A venda carne é proibida em muitas cidades indianas, e poucos Hindus estariam prontos para sequer provar carne bovina, por razões sócio-culturais.

Brahmins & Carne

No entanto, os antigos Hindus utilizavam a vaca abatida tanto para sacrifícios quanto para a alimentação. "Há evidências claras no Rig Veda, a mais sagrada escritura hindu, que a vaca era sacrificada pelos hindus para fins religiosos". Gandhi, em seu Hindu Dharma escreve sobre "uma frase em nosso livro para o efeito que os antigos Brahmins costumavam comer carne".

http://hinduism.about.com/library/weekly/aa101800a.htm?nl=1

domingo, janeiro 13, 2008

Lohri: O festival da Fogueira (Jan 13)


No meio do inverno, com a temperatura variando entre 0-5 graus, e da densa neblina fora, tudo parece estagnado na parte norte da Índia. No entanto, abaixo da aparentemente congelada superfície, você ficaria surpreso ao encontrar uma palpável onda de atividade acontecendo. Pessoas, em especial nos estados do norte indiano de Punjab, Haryana e em partes de Himachal Pradesh, estão ocupadas fazendo preparativos para Lohri - o muito esperado festival da fogueira - quando eles podem sair de suas casas e celebrar a colheita das culturas do Rabi (inverno) e relaxar e desfrutar as tradicionais canções e danças folclóricas.


Significado


Em Punjab, o trigo é a principal cultura de inverno, que é semeada em outubro e colhida em março ou abril. Em janeiro, os campos vêm com a promessa de uma colheita dourada, e os agricultores comemoram Lohri durante este período de repouso antes do corte e recolha de plantas.


De acordo com o calendário hindu, Lohri cai em meados de Janeiro (13 de Janeiro). A terra, mais distante do sol no hemisfério norte neste momento, iniciou a sua viagem para o sol assim que terminou o mês mais frio do ano, Paush, e anunciando o início do mês de Magh e o auspicioso período de Uttarayan – de 14 de janeiro a 14 de julho. Segundo o Bhagawad Gita, Lord Krishna manifesta-se no seu pleno esplendor durante este tempo. Os hindus 'anulam' seus pecados banhando-se no rio Ganges.


Costumes e Lendas


Na manhã do dia de Lohri, as crianças vão de porta em porta antando e pedindo os "despojos" de Lohri, na forma de dinheiro ou comestíveis como sementes de til (gergelim), açúcar, amendoins, ou doces como gajak, rewri, etc. Elas cantam em louvor a Dulha Bhatti, um avatar Punjabi de Robin Hood que roubava dos ricos para ajudar os pobres, e que em uma ocasião ajudou uma garota a sair de sua vila (e vida) miserável casando-a como se casasse sua irmã.


A Fogueira Ritual


À noite, com o pôr do sol, grandes fogueiras são acesas nos campos de colheita e na frente das casas e as pessoas se reúnem em torno das chamas, em círculo ao redor da fogueira (parikrama) e jogam arroz, pipoca e outras guloseimas no fogo, gritando "Aadar aye dilather jaye" (Possa a honra vir e a pobreza desaparecer!), e cantam canções folclóricas. Esta é uma espécie de oração para Agni, deus do fogo, para abençoar a terra com abundância e prosperidade. Após o parikrama, as pessoas encontram amigos e parentes, trocam cartões e presentes, e distribuem prasad (ofertas feitas ao deus). O prasad inclui cinco itens principais: til, gajak, açúcar, amendoim e pipoca. Condimentos de inverno são servidos ao redor da fogueira com o tradicional jantar de makki-ki-roti (uma espécie de pão) e sarson-ka-saag (cozido de mostarda e ervas).


Música e Dança


A dança Bhangra (feita por homens) começa após as oferendas na fogueira. Ela prossegue até à noite com novos grupos entrando no meio das batidas dos tambores. Tradicionalmente, as mulheres não aderem a Bhangra. Elas mantêm uma fogueira separada em seu pátio, circulando-a com a graciosa dança gidda.


O dia ‘Maghi’


O dia seguinte a Lohri chama-se 'Maghi', significando o início do mês de Magh. Segundo a crença hindu, este é um auspicioso dia para tomar um mergulho sagrado no rio e fazer caridade. Pratos doces (normalmente kheer) são preparados com suco de cana-de-açúcar para marcar o dia.


Exibição de exuberância


Lohri é mais do que um festival, em especial para o povo de Punjab. Punjabis são uma raça amorosa, resistente, robusta, enérgica, entusiasta e jovial, e Lohri é simbólico do seu amor para celebrações e romances e exibição de exuberância.


Uma Celebração de Fertilidade


Lohri celebra a fertilidade e a alegria da vida, e, no caso do nascimento de uma criança do sexo masculino ou de um casamento na família, ele assume um maior significado onde a família prepara para uma grande festa, fazendo o casamento com a tradicional dança bhangra juntamente com ritmo de instrumentos, como a dhol e a gidda. O primeiro Lohri de uma noiva ou um bebê recém-nascido é considerado muito importante.


Dia de Ação de Graças & Reuniões


Hoje em dia, Lohri traz em uma oportunidade para as pessoas da comunidade para fazer uma pausa de sua movimentada agenda e se reúnem para compartilhar da companhia uns dos outros. Em outras partes da Índia, Lohri quase coincide com os festivais de Pongal e Makar Sankranti, todos os quais passam a mesma mensagem da unicidade e celebram o espírito de fraternidade, enquanto agradecem os deuses pela vida na terra.


quarta-feira, janeiro 09, 2008

Posídon e Anfitrite


Do livro "Os Deuses Gregos" - Karl Kerényi

Nenhum dos deuses que governavam o nosso mar antes de Posídon teve alguma coisa a ver com o cavalo: nem o centímano Briareu, cujo segundo nome, Egéon, está ligado a aix, "cabra", nem "o Velho do Mar" debaixo de nenhum dos seus vários nomes ou metamorfoses tiveram a forma de cavalo. Antes de existir qualquer coisa como um cavalo-marinho, um deus em forma de touro costumava levar a reboque uma deusa mar afora. O próprio Posídon assumiu a forma de touro e, em sua qualidade de deus do mar, tinha touros sacrificados a ele. Pois o touro também apareceu nas praias do Mediterrâneo muito antes do cavalo. Hipocampos - "monstros cavalares" - meio cavalos e meio peixes semelhantes a serpentes; Centauros do mar, cujos corpos animais inferiores eram uma combinação de cavalo e peixe; Oceânidas e Nereidas, com nomes que lhes revelam a natureza eqüina feminina - como Hipo, Hipônoe, Hipótoe e Menipe: todos apareceram pela primeira vez no mar grego depois que Posídon tomou posse dele. O que fez pelo seu casamento com Anfitrite.

Hesíodo incluía Anfitrite entre as cinqüenta filhas de Nereu. Ela poderia ter sido, entretanto, facilmente tomada por uma Oceânida, uma filha de Tétis. Pois cada uma dessas duas, Anfitrite e Tétis, era, sem termo de comparação com todas as outras deusas e em qualquer sentido particular, a senhora e dona do mar, a quem pertenciam as ondas espumantes e monstros marinhos. De Anfitrite isso se afirma expressamente. Dizia-se que Posídon espiava a deusa quando ela dançava com as Nereidas na ilha de Naxos e raptou-a. Prossegue a história dizendo que Anfitrite fugiu de Posídon até a extremidade ocidental do mar, até Atlas ou até o palácio de Oceano, situado na mesma vizinhança. O seu esconderijo foi revelado ao perseguidor pelos golfinhos. Em realidade, um golfinho persuadiu a deusa e levou-a até o noivo. E, como recompensa, foi colocado entre as estrelas.

Após o casamento com Anfitrite, Posídon passou a ser o senhor do nosso mar. O casal reinante se parecia, em muitos aspectos, com Zeus e Hera. Assim como Zeus podia ser invocado semplesmente como "Marido de Hera", assim Posídon podia ser saudado como "Marido de Anfitrite, a do fuso de ouro". Sua procissão nupcial inspirou-se na de Dioniso e Ariadne: não somente cavalos, touros e carneiros, mas também veados, panteras, leões e tigres apareciam como monstros marinhos montados por Nereidas.

Os filhos de Anfitrite


Do livro "Os Deuses Gregos" - Karl Kerényi

Posídon, o marido turbulento não só de Anfitrite, mas também de muitas Nereidas, Náiades, ninfas e heroínas, foi o pai de numerosos filhos que desempenharam suas partes na saga heróica. Entre estes havia não somente heróis mas tembém seres selvagens e violentos que foram derrotados pelos heróis - seres como Polifemo, o Ciclope, cujo castigo, aplicado por Ulisses, reclamava a vingança de Posídon. As histórias dos deuses que estou relatando agora não fornecem ensejo para uma nova descrição desses seres. mas posso falar dos filhos dades por Anfitrite a Posídon - ou, pelo menos, dos dois mais famosos e que já mencionei: Tritão e a deusa-ilha Rodes.


Hesíodo chamava Tritão de "o da força ampla" e descrevia-o como um grande deus que habitava o fundo do mar, no palácio de ouro de sua adorada mãe Anfitrite e seu senhor e pai Posídon. Segundo o poeta, era uma divindade terrível. Já fiz alusão ao seu caso de amor com Hécate, e também ao modo com que Héracles o venceu pela força na presença do tríplice "Velho do Mar" - cuja arte de metamorfose o deus mais moço aparentemente não possuía. Tritão tinha uma forma semipíscea e semi-humana e pode ser melhor comparado com os Silenos e os Sátiros. A única diferença existente entre eles estava em que estes se haviam desenvolvido a partir de seres humanos disfarçados em criaturas da terra, ao passo que os protótipos de Tritão eram homens que se enfeitaram com caudas de peixes ou de golfinhos. Antiga pintura de vaso da Itália mostra um trio de dançarinos assim.

Os contos que falam em Tritão podem ser sintetizados da seguinte maneira: ele era o Sileno ou Sátiro do mar, estuprador de mulheres - na verdade, estuprador de meninos também, e desde os tempos mais remotos esses estupros eram levados a efeito por vários Tritões ao mesmo tempo -, um ser capaz de despertar o terror e desencaminhar os homens com a sua trompa de concha. Os Tritões eram às vezes seguidos de Tritões femininos. De ordinário, porém, as Nereidas os acompanhavam quando eles nadavam em procissões nupciais mar afora, celebrando o casamento de Posídon e Afrodite, ou o nascimento de Afrodite, ou os mistérios revelados, segundo consta, pelas Nereidas ao gênero humano.

A história da deusa Rodes, filha de Anfitrite, passa-se, toda ela, no meio das vagas espumejantes de sua mãe; no entanto, ela também nos apresenta à família do deus-sol. O nome Rodes está inseparavelmente ligado a rhodon, "rosa", assim como a deusa está inseparavelmente ligada à ilha. Dizia-se que quando Zeus e os outros deuses partilharam a terra entre si, a ilha de Rodes ainda não era visível: jazia escondida nas profundezas do mar. Hélio, o deus-sol, ainda não se apresentara à partilha, de modo que os outros o deixaram, o deus imaculado, sem propriedades. Quando, de inopino, se lembraram dele, Zeus propôs que cancelassem a partilha e começassem de novo. Hélio, porém, não consentiu nisso. Afirmou ver uma frágil nesga de terra erguendo-se do mar. Chamou Láquesis, a deusa da partilha, para que erguesse as mãos e jurasse, juntamente com os outros deuses e o filho de Crono, que o que quer que estivesse agora aparecendo caberia a ele como seu quinhão. E assim aconteceu: a ilha brotou das águas salgadas e passou a pertencer ao pai gerador dos raios do sol, o auriga dos corcéis que despedem o fogo. Na ilha, o deus se consorciou com a deusa Rodes e dela teve filhos. No princípio, a ilha e a deusa eram uma única pessoa, assim como o eram Delos e a deusa-estrela Astéria; ou como Lemnos, ilha dos Cabiros e de Hefesto, e sua Grande Deusa, que também se chamava Lemnos.

sábado, dezembro 08, 2007

O Significado do Ekadasi


A palavra sânscrita, "ekadasi", significa: "o décimo primeiro". Ela se refere ao décimo primeiro dia depois da lua cheia, e ao décimo primeiro dia após a lua nova. Há dois dias de lua plena no mês, um é a cheia, e o outro é a nova. Portanto, o Ekadasi ocorre duas vezes ao mês, exatamente nestes dias. A característica especial do Ekadasi, e o mais comum entre as pessoas, é o jejum de grãos. Isso é como é usualmente entendido. "Nós não comemos no Ekadasi", é o que as pessoas pensam que nós fazemos nestes dias. Na India, há uma rotina de abstinência de grãos, se não observar um completo jejum neste dia de Ekadasi. O particular significado desta observação não é meramente um jejum físico, mas psicológico e de pensamento, também; é algo muito essencial; são outros aspectos profundos do Ekadasi que estão envolvidos. De fato, o jejum é apenas uma expressão prática, e um símbolo, de alguma coisa mais, que nós resolvemos fazer, o qual possui um significado especial para nós. Por isso, aqueles que conhecem Astronomia, e que dizem que há uma influência do sistema planetário sobre nós, o mundo estelar, etc, sabem perfeitamente que nosso Planeta é parte do sistema Solar. Isso quer dizer que há um organismo ou organização o qual está metodicamente arranjado. Uma vez que nós sabemos que fazemos parte do movimento do sistema planetário, nós entendemos, através disso, que nós somos partes inseparáveis do sistema solar como um todo. Nossos corpos não estão separados da superfície da Terra, tal qual uma carroça que não tem nenhuma ligação orgânica com a estrada. Nosso corpo pertence ao Sistema Solar, uma gigante família da qual o Sol é a cabeça, e os planetas seus membros. O Sol guia as atividades desta família; e nós, sendo conteúdo deste sistema, não podemos ficar fora da influência do Sol. Nosso corpo está envolvido nestas leis que operam no Sistema Solar. Isso é uma descoberta da Astrologia. A Astronomia estuda os movimentos dos planetas, e estrelas, e a Astrologia os efeitos que isso produz no conteúdo do sistema. A observação do Ekadasi com um fenômeno astrológico, é feito devido a esta relação que nós temos com alguns planetas no Sistema. Nossa personalidade é inteiramente influenciada pelos movimentos dos planetas. De fato, não devemos pensar apenas que os planetas estão por sobre a nossa cabeça. Eles estão em todo o lugar. Há um movimento relativo dos planetas, entre os quais a Terra faz parte. O movimento de uma coisa relacionada a outra é chamado de movimento relativo. Não há um planeta o qual seja estático. Mesmo o Sol não está, no final das contas, estático. Todo o Sistema Solar está em movimento, e correndo em direção a uma gigantesca estrela, a qual é oitenta milhões de vezes maior e mais brilhante do que o nosso Sol, e cujas luzes não chegam até nós, como nos dizem os astrônomos. Nós compreendemos que há um movimento relativo entre os planetas e que nós somos influenciados relativamente pelos planetas. Cada planeta comando o nosso sistema, e nós não podemos nos livras desta influência do planeta da qual fazemos parte. O empuxo da gravitação possui influência sobre nosso corpo.


A lua é, supostamente, influenciadora da mente. A mente é, também, feita de substâncias materiais. A mente não é espiritual, mas material. Como é a matéria da mente? Isso pode ser perfeitamente conhecido se soubermos o como ela atua; em Homeopatia, por exemplo, o medicamento é manufaturado. Na Alopatia, nós damos medicamentos na sua base bruta, e na Homeopatia são chamados de tintura e dinamização. Na Homeopatia, uma gota da tintura mãe é misturada com cem gotas do espírito retificado, e agitado com força. A mistura é uma potência do remédio. Uma gota que é misturada em cem de substância neutra é misturada novamente. Esta é a segunda potência ou dinamização do remédio. Do mesmo modo, nós temos enormes potências. Então, você pode imaginar o que acontece com o remédio quando ele alcança elevada potência. Não há praticamente nenhum rastro da substância da tintura original, somente energia. Diz-se, então, que não há a substância, mas a vibração da substância, uma vibração da base material original. Há uma sutil vibração aromática, aromática naquele sentido de residium do medicamento original; e que a Alopatia pretende com uma substância irá remover o que a Homeopatia pretende. Todavia, esta "potencialização" é material, no sentido que ela é formada por matéria. Assim é a mente. Ela é uma parte sutil da substância material do nosso alimento. A sutil essência do alimento, não apenas o que é tomado diretamente pela boca, mas através dos sentidos, contribui para a mente ou com as coisas da mente. A mente é um sentido sutil, como um espelho o qual é feito apenas de material da terra, o pensamento brilha. Apenas uma superfície polida como um espelho é capaz de refletir a luz. A mente é um sentido material, mas o pensamento não é material. Ela é muito, mais muito sutil, e é feita de tudo o que nós tomamos ou bebemos. Assim, matéria influencia a matéria. Os planetas são tais quais corpos materiais, e assim eles influenciam a mente. A mente é a principal influência da lua. O Ekadasi é particularmente relevante a esta relação entre a lua e a mente. Você encontrará que, quando você mergulhar profundamente nos estudos de Astronomia, você não terá nada em seu corpo a não ser as influências planetárias! Nossos corpos são compostos e forças planetárias, e não há ninguém independente destas forças. Se cada planeta reivindicar a sua parte nosso corpo irá desintegrar-se. A lua influencia a mente, no seu movimento relativo orbital, bem como com referências a outros planetas e nós.


Outro importante aspecto é o local onde a mente é também dupla. Talvez você esteja vivendo em muitas casas, das quais, uma ou duas são suas próprias. Svasthana significa "um" local próprio. A mente possui muitas moradas ou centros de energia chamados de Chakras, os quais dois são seus conhecidos. O local da mente está personificado em nós em: 1. exatamente no corpo astral, na região correspondente entre as duas sobrancelhas, no estado desperto, e 2. no coração, durante o estado de sono. Se ela está no cérebro, estará ativa, e você, então, não estará dormindo. Se a mente estiver localizada na região intermediária, entre o centro na testa e o centro do coração, você estará no estado de sonho. Então, há um duplo centro da mente, o Ajña-chakra, ou o centro localizado entre as duas sobrancelhas, e o Anahata-chakra, ou o centro do coração. Em ambos estes centros, a mente sente-se em casa, porque ela está próxima de si mesma. Nos si mesma em cada. Na duas luas plenas (cheia e nova), no seu movimento, ela encontra-se no Ajña e no Anahata-chakras, no décimo primeiro dia. Visto que estes dois chakras são a sua morada, a mente fica na sua casa, e isso, fica concentrada e controlada facilmente. Esta é a experiência que nos foi dada pelos nossos mestres anciãos, e esta são as vantagens do Sadhakas. Você será capaz de concentrar muito facilmente quando a mente estiver naturalmente na sua própria morada. A mente não pode concentrar-se quando você está fora de sintonia, mas quando no seu local a contemplação é fácil. Então, o dia de Ekadasi em ambas as luas plenas, é a ocasião quando a sua mente encontra o seu lugar próprio, na lua cheia no Ajña-chakra, e na lua nova no Ahanata-chakra. Os seguidores do Yoga levam vantagens nestes dois dias, e tentam praticar a meditação profunda. Os Vaishnavas tratam os dias de Ekadasi como um dia muito sagrado, e observam jejum de grãos nestes dias.


Além de tudo isso, há uma necessidade de dar ao sistema psicológico algum descanso de vez em quando. Ele beneficia-se pelo fato de se comer pouco uma vez ou outra. Existem irregularidades que podem durar quatorze dias, mas que se corrigem num dia como o do Ekadasi. Deste modo, observar o Ekadasi possui muitas vantagens, físicas, astrais e espirituais, e porque neste dia há uma conexão com o relacionamento da mente com sua morada, junto com a Lua, então seremos de forma muito transcendental beneficiados em nossa meditação e contemplação; transcendental porque não se pode saber disso de forma consciente. Mas podemos sentir isso pelo simples fato de observarmos o Ekadasi. Na Índia, tudo possui uma interpretação espiritual. Cada rio é uma Deidade. Cada montanha é um Deus. Tudo é sagrado, e dedicado ao Divino. Tudo é presidido por uma deidade em particular: Gramdevata, Grihadevata, etc. Deus está em todo o lugar. A idéia por detrás de tudo isso é que nos temos o sentimento da presença de Deus em tudo e em todos. No espaço e no tempo, em tudo há Deus. O tempo é Deus. As direções são Deus. Assim, cada objeto torna-se uma incorporação de Deus. O dia de Ekadasi na India é um dia de iluminação religiosa, o qual é profundamente significante na vida.

SWAMI KRISHNANANDA (discipulo de Swami Sivananda)

As 7 bençãos do casamento Hindu


A cerimônia hindu, um rito conhecido como Samskara, tem muitos componentes e é muito bonito, especial e recheado de encantamentos, bençãos sânscritas e rituais milenares. Na Índia ele pode durar semanas ou dias, enquanto que no Ocidente ele dura apenas 2 horas.


Um aspecto importante da cerimonia Hindu é acender um fogo sagrado, criado a partir de ghee (uma espécie de manteiga) e fios de lã, para evocar o deus Agni (Fogo), para testemunhar a cerimonia.


O ponto alto é Saptapadi, também chamado de "Os sete passos". Tradicionalmente o sari da noiva é amarrado ao Kurta do noivo, ou um véu deve ser amarrado do ombro do noivo ao sari da noiva.


Ele lidera, com os dedos mínimos unidos, os sete passos ao redor do fogo, enquanto o sacerdote recita 7 bençãos ou votos para um casamento forte. Enquanto andam ao redor do fogo, os noivos concordam com os votos. A cada passo, eles jogam pequenas porções de arroz no fogo, representando prosperidade em sua nova vida juntos. Essa é considerada a parte mais importante da cerimônia, e sela a união para sempre.


As sete bençãos são as seguintes:
1. Que esse casal seja abençoado com a abundância de recursos e conforto, e se ajudem em todos os sentidos.
2. Que esse casal seja forte e que se complementem.
3. Que esse casal seja abençoado com prosperidade e riquezas em todos os níveis.
4. Que esse casal seja eternamente feliz.
5. Que esse casal seja abençoado com uma vida em família harmoniosa.
6. Que esse casal viva em perfeita harmonia, verdadeiros aos seus valores pessoais e às promessas em comum.
7. Que esse casal sempre seja o melhor dos amigos.


Uma coisa que eu aprecio muito na cerimonia hindu é que a noiva e o noivo sobem ao altar como o Deus e a Deusa na forma humana. Em muitas partes da Índia a noiva é considerada Lakshmi, Deusa da Fortuna, e o noivo é seu consorte Vishnu, o Grande Mantenedor.


E é exatamente assim que os noivos devem se sentir ao trocar os votos: um casal divino!


(http://hinduism.about.com/od/matrimonial1/a/7blessings.htm?nl=1)


sexta-feira, dezembro 07, 2007

Devi, a Reluzente


Quando os deuses celestiais caíram exauridos após a batalha com os demônios o rei Mahishasura com sua natureza bondosa aproveitou a oportunidade para reunir um grande exercito e se autodeclarar o senhor dos céus, o governante do universo.


Essa blasfêmia chegou aos ouvidos de Vishnu que muito zangado emitiu uma forte luz de sua testa, Shiva também se zangou e ao descender de seu estado sublime de meditação emitiu um forte raio de luz ofuscante na mesma direção do raio de Vishnu. Brahma, Indra e outros deuses poderosos fizeram o mesmo emitindo raios de luz e todos esses raios se juntaram em um mesmo ponto e aos poucos a concentração abrasante das luzes assumiu a forma de uma mulher. A luz de Shiva formou o seu rosto, de Yama seu cabelo, de Vishnu seus braços, de Chandra seus seios, de Indra sua cintura, de Varuna suas coxas, da Terra seus quadris, de Brahma seus pés, de Agni, o deus do fogo, os Seus três olhos. Assim todos os deuses contribuíram com seus poderes para manifestar a auspiciosa Devi, a grande deusa Mãe. (o nome Devi deriva-se da raiz sânscrita divi que significa brilhar, assim Devi significa a reluzente).


Os imortais fizerem suas preces e a adoraram com louvores, ornamentos e armas. Shiva lhe deu um tridente, com o seu próprio. Vishnu um disco poderoso. Indra um raio. Surya, o deus do sol, lhe concedeu raios em todos os poros de sua pele e Varuna o deus do oceano, lhe presenteou com brincos, braceletes, e uma coroa de jóias divina e uma guirlanda de lótus que jamais murcha. Os deuses gritaram em uníssono, que a vitória seja da Mãe. No momento que os batalhões de demônios se aproximavam rufando seus tambores, em meio aos gritos de batalha, e ao soar das conchas. Devi era de uma estatura enorme e os demônios marchavam diretamente para Ela e ao se aproximarem atacaram-na de todos os lados, com flechas, macas, espadas e lanças. Devi emitia um som ensurdecedor urrando e rindo um sorriso aterrador e desafiante. Os dez braços dEla giravam de uma forma alternada esmagando assim as armas dos demônios e os arremessando contra seus pares. De uma só vez Ela levantava dezenas de demônios e os matava com Sua espada. Outros Ela nem se dignava levantar, paralizando-os com o tremendo barulho de Seus sinos esmagando-os após com sua maça. Quando Ela lutou com o demônio Raktabhija a terrível Mãe deusa se defrontou com vários problemas. Esse demônio tinha poderes que lhe permitiam criar novos demônios a partir de seu próprio sangue. Assim quando a deusa o feria cada gota de sangue que pingava no chão imediatamente brotava outro demônio plenamente desenvolvido. Mas no final a Mãe o sobrepujou, levantando Raktabhija e evitando que as gotas de sangue caíssem no chão, bebendo seu sangue. Esmagou-o entre seus dentes e o engoliu. Houve outro demônio que tentou sobrepujar a deusa com seus poderes mágicos. Sempre que estava ameaçado ele mudava sua forma e sua cor, porem quem pode escapar da grande Mãe? Pego pelo laço dEla cuspindo sangue o demônio foi capturado pela Devi e como uma criança que puxa um trem de brinquedo Ela o arrastou pelo campo de batalha onde já havia muitos e muitos demônios partidos ao meio pela afiada lâmina de sua espada. Agarrando alguns elefantes com uma mão, Devi jogava-os para dentro de sua boca juntamente com os demônios condutores. E assim Ela furiosamente os esmagava com seus dentes. Ela agarrou um dos demônios pelo cabelo e outro pelo pescoço, o primeiro era esmagado pelo peso de Seu pé e o outro com o Seu corpo. A presença devastadora da Mãe preenchia até mesmo as alturas do céu. Nuvens negras cobriam o local enquanto relâmpagos atemorizantes iluminavam as formas horripilantes em terra. Lá se via milhares de demônios, sem braços, sem pernas, dilacerados e cortados ao meio.


Quando Mahishasura, o rei dos demônios, viu que seu exército havia sido devastado pelos golpes da assombrosa Deusa Mãe, ele foi tomado por uma fúria devastadora. Seu corpo se expandiu assumindo a forma de um búfalo gigantesco e aterrador. Ele estava envenenado com sua própria força e valor e por isso rugia de maneira desafiadora e assim investiu contra Devi.


A Deusa gritou, ó touro você pode berrar agora, mas quando Eu o destruir, em breve, serão os deuses que irão bradar em vez de você. A terra começou a tremer com as batidas dos pés da Deusa. Mahishasura lutava com todas suas forcas e poder, mas não conseguia sobrepujar Devi. Por isso ao final ele apelou ao senso de justiça dEla dizendo que não era justo ele estar lutando com alguém tão mais poderosa. Ele alegava que Ela foi ajudada por inúmeras deusas como Durga, Kali, Chamunda, Ambhika e outros enquanto ele, Mahishasura estava só na batalha. Ela disse, eu estou sozinha, você esta vendo alguém ao meu lado? Você não percebe, ó vilão que essas deusas são apenas diferentes aspectos do meu poder e que depois retornarão a Mim. Aqui estou apenas eu mesma. Não recue, defenda-se.


E assim a selvagem batalha continuou e o demônio gigante atacou a deusa Mãe com chuvas de flechas. Ele girava discos, e brandia a maça e o bastão. Mas tudo era em vão. Ele foi morto com a lança da Devi. Assim liberando aquela alma de seu corpo e mente de natureza maligna.


As nuvens de poeira carregavam o forte odor de carne putrefata e pele chamuscadas para o horizonte que se mostrava com um forte tom vermelho sangue. Os demônios estavam mortos e o sangue deles se acumulava em poças em volta das carcaças dos elefantes e dos cavalos. Ainda insistiam em lutar contra Devi apenas alguns demônios sem cabeça. A batalha havia terminado bem como os estridentes gritos, agora se ouviam apenas os uivos dos chacais e das hienas. Nada mais havia para se matar, porém a Mãe em sua forma de Kali totalmente intoxicada pelo sangue que bebera continuava a carnificina esmagando e dilacerando os corpos já mortos dos demônios. Assim a celebração que já havia começado entre os deuses ao ver a cólera da Mãe, rapidamente foi se transformando em medo. Quem poderia parar a sua fúria? Apenas o grande Deus Shiva poderia executar tal tarefa. Untado de cinzas, o terceiro deus da trindade hindu, partiu para o campo de batalha e ali se deitou imóvel entre os cadáveres enquanto ao longe os deuses o observavam. Devi em sua fúria intoxicada andava em ziguezague entre os corpos e de repente ela se viu pisando em um belo corpo masculino nu e untado com cinzas brancas. Cheia de admiração Ela ficou paralisada por um instante olhando diretamente para os olhos dEle, Seu marido Shiva. Quando Ela percebeu que tocava o corpo de seu marido divino com seus pés, um ato de desrespeito impensável para uma mulher hindu, Kali estirou Sua língua envergonhada e isso pôs fim a destruição que Ela executava.


A antiga lenda de Devi, a grande deusa Mãe, tem passado de geração a geração entre os hindus que é proveniente de um livro sagrado dos shaktas tantras chamado Chandi. Embora essa narração sanguinária e sentimental seja alegórica, devemos considerar qual seu significado intrínseco para a sociedade hindu de hoje. Do ponto de vista religioso e social essa lenda reafirma o poder protetor do arquétipo da Mãe que é parte integral da vida familiar hindu. No ocidente, a mulher de família é observada primordialmente no seu papel de esposa, enquanto na Índia a mulher sempre é vista como Mãe. Mesmo a mulher solteira, sem filhos geralmente é chamada de mataji (Mãe). Isso é um gesto de respeito porque os hindus consideram a posição da Mãe como sendo suprema.


Na Índia, especialmente na Bengala, adora-se a grande Mãe com cerimônias de grande esplendor. Uma vez por ano durante o festival de outono chamado Durga puja é reencenada a história da estupenda protetora e assim juntam-se lado a lado intelectuais e analfabetos para adorar a Mãe nos templos, nos lares e nos pandals que se montam nas ruas. A grande Mãe abençoa esses esforços na forma da certeza de que todo ano o bem sempre Irá sobrepujar o mal.


Do ponto de vista filosófico, essa lenda é uma representação alegórica da guerra constante que acontece dentro de todos nós, ou seja, a batalha entre a nossa natureza divina contra a demoníaca. Na lenda da deusa Mãe cada uma de nossas paixões e vícios tem o seu demônio representativo, por exemplo, Sumbha é o demônio que corporifica a luxúria, Nisumbha a ambição e Mahisasura a ira.


Um famoso erudito indiano Sashi Bushan Das Gupta escreveu um artigo intitulado "Evolução da Adoração a Mãe na Índia". Ele disse: "Sempre que nossas paixões se vêem em perigo de serem erradicas ou anuladas, elas mudam de forma e cor e tentam escapar disfarçadas. Isso está bem ilustrado na história de alguns dos demônios que mudam de forma quando se defrontam com Shakti, poder divino. O fato é que essas nossas paixões e instintos têm raízes tão profundas em nós que na maioria das vezes parecem ser indestrutíveis, ou seja, ao pensarmos que acabamos com um de imediato vem outro substituir. Vemos isso bem ilustrado na luta da deusa com o demônio Raktabija que para cada gota de sangue caída ao chão brotava um outro demônio revigorado e feroz. É o despertar da Mãe dentro de nós ou seja termos plena consciência do poder divino trabalhando em nós que torna o homem forte e dotado do imenso poder de Deus. (Grandes mulheres da Índia pg. 80, por Svami Madhavananda e Ramesi Chandra)"


Alguns hindus falam da grande Mãe com a veemência de um filho que ameaça outra criança ao disputarem um brinquedo: "A minha Mãe vai te castigar se você não der isso para mim." Essa forte crença na Deusa que cuida das necessidades terrenas e espirituais parece ser infantil para os que vivem no mundo dos adultos dominados pela razão. Porém, se perscrutarmos com cuidado as camadas construídas pelos valores ditados pela sociedade, a maioria de nós concordará que em algum lugar no fundo de nossa alma existe uma vereda reconfortante reservada para nossa Mãe terrena bem como para nossa Mãe arquétipo. Muitos povos na história da humanidade depositaram sua crença no poder da Mãe deusa como sendo a força diretriz do universo. Svami Vivekananda ficou famoso no ocidente ao ensinar a forma mais elevada do Vedanta aham brahmasmi (Eu sou Brahmam, Eu sou Deus) é um exemplo. Não preste reverência a nenhum outro Deus exceto ao Eu que está dentro de você. Porém mesmo Svami Vivekananda em seu extremo racionalismo teve que reconhecer a Mãe Kali. Ele falou para alguns devotos de seu circulo intimo sobre sua paixão intima pela Mãe divina. O que se segue é uma transcrição de uma palestra que Svami Vivekananda proferiu para um pequeno grupo em um chalé no Thousand Island Park: "A Mãe é a primeira manifestação de poder e se considera como o ideal superior ao pai. O nome da Mãe traz a idéia de shakti, energia divina e onipotência. Para o recém nascido sua Mãe tem todo o poder e é capaz de fazer qualquer coisa. A Mãe divina é o kundalini que está adormecido dentro de nós, se não a adoramos jamais iremos nos conhecer. Os atributos da Mãe divina é misericórdia plena, poder total, e onipresença. Ela é a soma total da energia no universo. Toda e qualquer manifestação de poder no universo provém da Mãe. Ela é vida, inteligência, amor. Ela está no universo ainda que separada dele. Ela é uma pessoa que pode ser vista e conhecida. Da mesma forma que Shri Ramakrishna a viu e a conheceu. Estabelecidos na idéia dessa Mãe, qualquer coisa nos é possível. Ela responde imediatamente a nossas preces. Ela pode se mostrar a nós em qualquer forma a qualquer momento. A Mãe divina pode ter forma, rupa, e nome, (nama), ou ainda ter nome sem a forma. E a medida que nós a adoramos em seus diferentes aspectos podemos nos elevar de ser puro, ou seja sem nome nem forma... Um pedaço da Mãe, uma gota foi Krishna, outra foi Buda, outra foi Cristo. Adoração mesmo de uma centelha da Mãe no nosso lar terreno levanos a grandeza. Adore a Ela se você deseja amor e sabedoria. (Spirit Talks por Svami Vivekananda, pg. 48-49)"


quarta-feira, outubro 31, 2007

Mitos que metem medo

Ilustrações: Guazelli
Texto: Danilo Ribeiro

Em outubro, em várias partes do mundo, comemora-se o Halloween, ou DIa das Bruas. Tradição norte-americana. Mas será que é o caso de importar lendas alheias se temos tantos mitos capazes de botar qualquer bruxinha na sandália? Para rebater a data, há quem defenda: 31 de outubro é o Dia do Saci. Do Saci e de toda a sua turma, esses meliantes que vivem à solta, praticando toda sorte de malfeitorias. É hora de puxar a ficha corrida dessa gente e dar o veredicto. Podemos ou não tolerar tamanha série de abomináveis maldades? E mais: haverá cadeia capaz de conter a imaginação?

Atenção. Eles são capazes de qualquer coisa. De azedar o leite a raptar crianças que teimam em não dormir; de tirar gente do rumo de casa a roubar presentes. Quebram pontas de agulha, desferem coices, queimam os desavisados. Tem de todo o tipo, pra todo gosto e de todos os cantos. O Cabeça de Guia vem do Piauí; o Negrinho do Pastoreio, do Rio Grande do Sul; a Cobra Norato, do Pará; o Tibanaré, do Mato Grosso. Tem uns que não se sabe nem de onde vêm. A quadrilha é tão extensa que não caberia num almanaque dedicado todinho a ela.
Ao longo do tempo, perseguida, essa turma acabou se refugiando longe das histórias que contamos para as crianças. Em 1947, Câmara Cascudo já alertava para o risco de extinção. Em Geografia dos Mitos Brasileiros, para garantir-lhes sobrevida, resolveu prendê-los num campo, bem pobre e curto, mas enfim um campinho onde poderão ser vistos em maior número que no meio das matas, dos capoeirões e das várzeas brasileiras, dos rios, dos ares e das montanhas da Pátria. Fez efeito. Hoje, parte fundamental dos registros sobre nossa riqueza mitológica está nas páginas do patrono deste almanaque. E de lá, vira-e-mexe, saltam de volta para o terreno da imaginação dos leitores.

MAL NECESSÁRIO
Segundo o crítico literário Fábio Lucas, os mitos brasileiros servem de referência para que nos identifiquemos enquanto grupo social. "Se alguém fala na Iara, por exemplo, você sabe que é brasileiro. A nação identifica esses símbolos." No interior do País, lendas viram romances e cantorias em feiras. "Remetem a tempos fabulosos, em que o homem era um prolongamento da natureza, as árvores e os animais falavam", completa.
Este atenuante é válido. Mas como justificar o medo que instilam nas pessoas, dos senis aos mais jovens? O psicanalista Mário Corso, no livro Monstruário, defende que essa sensação colabora para nosso bem-estar: "É ótimo para as crianças. É mais fácil saber do que se tem medo. Ruim com eles, pior sem". Para Mário, na cultura ocidental, Deus e o Diabo travam batalha sem fim: enquanto um organiza, o outro bagunça o mundo. E com os dois em baixa atualmente, os entes fantasiosos cumprem bem o papel. "Precisamos desses monstros, pois sozinhos não conseguimos explicar o mal, por isso criamos símbolos para sintetizá-los". Que tenha início então o julgamento.

Saci: Já foi tema de livros, filmes e programas de tevê. Há três tipos: o Saci Trique, o Saçurá e o Pererê. Os dois primeiros são coadjuvantes, mas o último, com vocação para a liderança, é altamente perigoso. Delinquente de uma perna só, com capuz vermelho e cachimbo na boca, é acusado de amarrar o rabo de cavalos, atormentar cachorros e atropelas galinhas. Na cozinha, estraga a sopa, azeda o leite, além de queimar a comida. Apronta também com as costureiras, derrubando dedais, quebrando a ponta de agulhas, escondendo tesouras e embaraçando novelos. Deixa os pregos de ponta pra cima. Apesar da brandura de suas malvadezas, é réu reincidente. Prova disso é que Monteiro Lobato, já em 1918, compilou num inquérito as acusações que pesavam sobre o malandrinho, reunindo depoimentos de crianças de todo o Brasil - hoje, seguramente, todas avós, bisavós e tataravós. Acusação: Crime de injúria, caracterizado por ferir a honra pessoal da vítima. A ação penal prossegue mediante representação. Detenção de um a seis meses, ou multa, caso não haja acusações de maltrato a animais.

Mula-sem-cabeça: Alguns a conhecem como Burrinha de Padre. originalmente, era uma mulher. Desavisada, envolveu-se pecaminosamente com um padre. Daí em diante, toda a noite de quinta-feira se transforma em uma mula incrivelmente veloz, com uma chama no lugar da cabeça. De longe se ouve seu galope fantástico e seu cavalgar pesado, barulhento. Se calha de aparecer alguém atrás, desfere coices que cortam como navalhas. Toda a gente se assusta, bem como os bichos. Só quando o galo canta a terceira vez na manhã seguinte, volta à forma humana. Pela história de mulher sofrida, e pelo fato de já estar pagando por seus pecados, terá sua pena abrandada. Acusação: Lesão corporal. Pena de três meses a um ano de detenção. Cabível progressão de pena. O réu pode responder a processo em liberdade.

MBoitatá: Cobra de fogo, tem grandes e assustadores olhos. Vive na água, mas é na terra que persegue suas vítimas, com o pretexto de proteger as matas e os animais. Diz que só ataca quem maltrata a natureza. Mas há evidências em contrário: o jesuíta José de Anchieta, em 1560, relatou o caso da labareda viva que perseguia gratuitamente as pessoas. O que se sabe de concreto é que suas vítimas morrem, ou de medo ou queimadas. E que o algoz camufla-se atrás de vários pseudônimos: Boitatá, Bitatá, Batatá, Batatão e Baetatá.Um alerta. Se encontrar MBoitatá por aí, há duas saídas: ou ficar parado, estático mesmo, de olhos fechados e sem respirar; ou, caso você esteja sobre um rápido alazão, trate de fazer uma armadilha com uma corda. Quando alcançar boa velocidade, atire a corda com força contra uma árvore. MBoitatá se espatifará. mas não hesite: logo ela se reagrupa. Acusação: Falsidade ideológica: pena de reclusão de um a cinco anos e multa. Pode aguardar julgamento em liberdade. E também homicídio doloso privilegiado, por motivo de relevante valor social: pena mínima (seis anos).

Homem do Saco: Ser urbano, esse sujeito aterrorizador caminha pelas ruas com um saco nas costas. Se uma criança sai de casa sozinha, o elemento rapta-a de prontidão. Apesar de preferir crianças desobedientes, todas correm perigo. Uma vez dentro do saco, o apreendido descobre o que o homem carrega: mais crianças. Uma porção delas. É uma viagem só de ida. O modernista Menotti Del Picchia, em seu conto Salomé, relata a existência dessa figura, que se escondia sob o pseudônimo de Tinoco. Dizem que o Homem do Saco começou suas atividades ilícitas na Inglaterra, onde pais malvados amarravam fitas vermelhas nos pés da cama, indicando as crianças que poderiam ser levadas. Há quem diga que isso tudo é balela; que são ameaças dos pais para que seus filhos não saiam de casa inadvertidamente. Pelo sim, pelo não, cara criança, se vir um homem na rua com as características apontadas acima, volte correndo para dentro de casa. Acusação: Cárcere privado. Reclusão de até três anos. Caso se verifique a participação dos pais, agravamento da pena por formação de quadrilha.

Lobisomem: Criminoso astuto, começou suas atividades sabe-se lá onde. Para alguns, veio da Grécia, onde Licaon, rei da Arcádia, teria servido carne humana a Zeus. Furioso, o deus supremo o teria transformado em lobo. Fugiu então para Roma. Perambulou por séculos pela Europa. Depois de muito fugir, o maldito veio parar no Brasil. Dizem que se esconde hoje na paulista Joanópolis, no sopé da Serra da Mantiqueira, embora haja indícios que não seja um, mas muitos. Corre à boca pequena que leva vida dupla: de dia age naturalmente, sem despertar suspeitas. Mas em noite de Lua Cheia transforma-se em lobo. Vagando sobre quatro patas, se não mata suas vítimas, transforma-as em lobisomem. No dia seguinte, o bandido acorda com suas roupas rasgadas, cansado, apático e amarelo. A ciência ainda não descobriu cura para readaptar esse tipo à sociedade. Armas comuns são inúteis. Só há duas maneiras de contê-lo, dizem: tiro de bala de prata ou com projétil revestido com cera de vela de altar, no qual celebraram-se três missas natalinas. Acusação: Homicídio qualificado praticado por motivo fútil: vai a júri popular. Crime hediondo. Pena de 12 a 30 anos. Caso fosse réu primário, poderia cumprir parte da pena em regime aberto. Como é estrangeiro clandestino, está sujeiro a extradição sumária.

Cuca: Também conhecida como Coca, é velha, feia e desgrenhada. Aparece de noite para levar embora crianças inquietas, que teimam em não dormir quando os pais mandam. Não por acaso, existe uma canção de ninar (na verdade um aviso para os mais levado): Nana, neném, que a Cuca vem pegar / Papai foi pra roça, mamãe pro cafezal. Articulou uma quadrilha que possibilita agir simultaneamente em várias regiões do País, raptando crianças sem deixar rastro. Em diversas partes do mundo sabe-se de sua existência. Recentemente, passou por transformações tão radicais que testemunhas relataram parecer-se mais com um dragão, ou um jacaré: tem o corpo repleto de escamas, uma boca enorme e uma cabeleira vermelha (não se sabe se usa tintura). Acusação: Formação de quadrilha. Artigo 288 do Código Penal. Pena de um a três anos. Cárcere privado: até três anos de reclusão. Reincidente, circunstância agravante que aumenta o tempo de pena. Para diminuí-la, a defesa pode alegar crime continuado (dois ou mais crimes da mesma espécie).

Ouvidas as testemunhas, acusações e defesas, resolve-se livrar a barra dos acusados. A favor deles pesam os seguintes fatos: aguçam a curiosidade, revelam sobre nossa identidade, estimulam a criatividade, engrossam com muita sustança nosso caldo cultural. Que venham novos acusados, que se somem mais relatos, que se crie, no fértil terreno das idéias, tantos campos quanto puderem abrigar nossas lendas e mitos. E nem poderia mesmo ser diferente. Eles se multiplicam, estão em qualquer lugar, surgem a qualquer hora em que risque a fagulha de novas histórias. Afinal, haverá cadeia capaz de aprisionar a imaginação?

Veredicto final: ABSOLVIDOS

quinta-feira, outubro 25, 2007

Rabindranath Tagore


Escritor indiano, nasceu em Calcutá em 1861 e morreu em Bengala em 1941. Depois de educação tradicional na Índia, completou a formação na Inglaterra entre os anos de 1878 e 1880. Começou sua carreira poética com volumes de versos em língua bengali. Em 1931, recebeu o prêmio Nobel de literatura. Desde então, traduziu seus livros para o inglês, a fim de lhes garantir maior difusão. Em suas poesias, Tagore, oferece ao mundo uma mensagem humanitária e universalista. Seu mais famoso volume de poesias é Gitãñjali (Oferenda poética). Fundou, em 1901, uma escola de filosofia em Santiniketan, que, em 1921, foi transformada em universidade.

Gitanjali

Deixa a cantilena, o cântico e a recitação de contas de rosário!
A quem veneras neste recanto solitário e escuro dum templo de portas fechadas?
Abre teus olhos e vê que teu Deus não está diante de ti!
Ele está onde o agricultor está lavrando o chão duro e onde o pedreiro está rachando pedras.
Ele está com eles no sol e na chuva, e sua roupa está coberta de poeira.
Remove teu manto sagrado e como Ele desça para o chão empoeirado!
Libertação? Onde se encontra esta libertação?
Nosso mestre assumiu pessoalmente com alegria os vínculos da criação;
Ele está vinculado a nós para sempre.
Sai de tuas meditações e deixa de lado tuas flores e o incenso!
Que mal há se tuas roupas ficam gastas e manchadas?
Encontra-o e fica com Ele na faina e no suor de tua face.

Minha canção

Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor. Tocará o teu rosto como um beijo de graças. Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido. Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito. Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel. Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas. Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos.