sábado, dezembro 08, 2007

O Significado do Ekadasi


A palavra sânscrita, "ekadasi", significa: "o décimo primeiro". Ela se refere ao décimo primeiro dia depois da lua cheia, e ao décimo primeiro dia após a lua nova. Há dois dias de lua plena no mês, um é a cheia, e o outro é a nova. Portanto, o Ekadasi ocorre duas vezes ao mês, exatamente nestes dias. A característica especial do Ekadasi, e o mais comum entre as pessoas, é o jejum de grãos. Isso é como é usualmente entendido. "Nós não comemos no Ekadasi", é o que as pessoas pensam que nós fazemos nestes dias. Na India, há uma rotina de abstinência de grãos, se não observar um completo jejum neste dia de Ekadasi. O particular significado desta observação não é meramente um jejum físico, mas psicológico e de pensamento, também; é algo muito essencial; são outros aspectos profundos do Ekadasi que estão envolvidos. De fato, o jejum é apenas uma expressão prática, e um símbolo, de alguma coisa mais, que nós resolvemos fazer, o qual possui um significado especial para nós. Por isso, aqueles que conhecem Astronomia, e que dizem que há uma influência do sistema planetário sobre nós, o mundo estelar, etc, sabem perfeitamente que nosso Planeta é parte do sistema Solar. Isso quer dizer que há um organismo ou organização o qual está metodicamente arranjado. Uma vez que nós sabemos que fazemos parte do movimento do sistema planetário, nós entendemos, através disso, que nós somos partes inseparáveis do sistema solar como um todo. Nossos corpos não estão separados da superfície da Terra, tal qual uma carroça que não tem nenhuma ligação orgânica com a estrada. Nosso corpo pertence ao Sistema Solar, uma gigante família da qual o Sol é a cabeça, e os planetas seus membros. O Sol guia as atividades desta família; e nós, sendo conteúdo deste sistema, não podemos ficar fora da influência do Sol. Nosso corpo está envolvido nestas leis que operam no Sistema Solar. Isso é uma descoberta da Astrologia. A Astronomia estuda os movimentos dos planetas, e estrelas, e a Astrologia os efeitos que isso produz no conteúdo do sistema. A observação do Ekadasi com um fenômeno astrológico, é feito devido a esta relação que nós temos com alguns planetas no Sistema. Nossa personalidade é inteiramente influenciada pelos movimentos dos planetas. De fato, não devemos pensar apenas que os planetas estão por sobre a nossa cabeça. Eles estão em todo o lugar. Há um movimento relativo dos planetas, entre os quais a Terra faz parte. O movimento de uma coisa relacionada a outra é chamado de movimento relativo. Não há um planeta o qual seja estático. Mesmo o Sol não está, no final das contas, estático. Todo o Sistema Solar está em movimento, e correndo em direção a uma gigantesca estrela, a qual é oitenta milhões de vezes maior e mais brilhante do que o nosso Sol, e cujas luzes não chegam até nós, como nos dizem os astrônomos. Nós compreendemos que há um movimento relativo entre os planetas e que nós somos influenciados relativamente pelos planetas. Cada planeta comando o nosso sistema, e nós não podemos nos livras desta influência do planeta da qual fazemos parte. O empuxo da gravitação possui influência sobre nosso corpo.


A lua é, supostamente, influenciadora da mente. A mente é, também, feita de substâncias materiais. A mente não é espiritual, mas material. Como é a matéria da mente? Isso pode ser perfeitamente conhecido se soubermos o como ela atua; em Homeopatia, por exemplo, o medicamento é manufaturado. Na Alopatia, nós damos medicamentos na sua base bruta, e na Homeopatia são chamados de tintura e dinamização. Na Homeopatia, uma gota da tintura mãe é misturada com cem gotas do espírito retificado, e agitado com força. A mistura é uma potência do remédio. Uma gota que é misturada em cem de substância neutra é misturada novamente. Esta é a segunda potência ou dinamização do remédio. Do mesmo modo, nós temos enormes potências. Então, você pode imaginar o que acontece com o remédio quando ele alcança elevada potência. Não há praticamente nenhum rastro da substância da tintura original, somente energia. Diz-se, então, que não há a substância, mas a vibração da substância, uma vibração da base material original. Há uma sutil vibração aromática, aromática naquele sentido de residium do medicamento original; e que a Alopatia pretende com uma substância irá remover o que a Homeopatia pretende. Todavia, esta "potencialização" é material, no sentido que ela é formada por matéria. Assim é a mente. Ela é uma parte sutil da substância material do nosso alimento. A sutil essência do alimento, não apenas o que é tomado diretamente pela boca, mas através dos sentidos, contribui para a mente ou com as coisas da mente. A mente é um sentido sutil, como um espelho o qual é feito apenas de material da terra, o pensamento brilha. Apenas uma superfície polida como um espelho é capaz de refletir a luz. A mente é um sentido material, mas o pensamento não é material. Ela é muito, mais muito sutil, e é feita de tudo o que nós tomamos ou bebemos. Assim, matéria influencia a matéria. Os planetas são tais quais corpos materiais, e assim eles influenciam a mente. A mente é a principal influência da lua. O Ekadasi é particularmente relevante a esta relação entre a lua e a mente. Você encontrará que, quando você mergulhar profundamente nos estudos de Astronomia, você não terá nada em seu corpo a não ser as influências planetárias! Nossos corpos são compostos e forças planetárias, e não há ninguém independente destas forças. Se cada planeta reivindicar a sua parte nosso corpo irá desintegrar-se. A lua influencia a mente, no seu movimento relativo orbital, bem como com referências a outros planetas e nós.


Outro importante aspecto é o local onde a mente é também dupla. Talvez você esteja vivendo em muitas casas, das quais, uma ou duas são suas próprias. Svasthana significa "um" local próprio. A mente possui muitas moradas ou centros de energia chamados de Chakras, os quais dois são seus conhecidos. O local da mente está personificado em nós em: 1. exatamente no corpo astral, na região correspondente entre as duas sobrancelhas, no estado desperto, e 2. no coração, durante o estado de sono. Se ela está no cérebro, estará ativa, e você, então, não estará dormindo. Se a mente estiver localizada na região intermediária, entre o centro na testa e o centro do coração, você estará no estado de sonho. Então, há um duplo centro da mente, o Ajña-chakra, ou o centro localizado entre as duas sobrancelhas, e o Anahata-chakra, ou o centro do coração. Em ambos estes centros, a mente sente-se em casa, porque ela está próxima de si mesma. Nos si mesma em cada. Na duas luas plenas (cheia e nova), no seu movimento, ela encontra-se no Ajña e no Anahata-chakras, no décimo primeiro dia. Visto que estes dois chakras são a sua morada, a mente fica na sua casa, e isso, fica concentrada e controlada facilmente. Esta é a experiência que nos foi dada pelos nossos mestres anciãos, e esta são as vantagens do Sadhakas. Você será capaz de concentrar muito facilmente quando a mente estiver naturalmente na sua própria morada. A mente não pode concentrar-se quando você está fora de sintonia, mas quando no seu local a contemplação é fácil. Então, o dia de Ekadasi em ambas as luas plenas, é a ocasião quando a sua mente encontra o seu lugar próprio, na lua cheia no Ajña-chakra, e na lua nova no Ahanata-chakra. Os seguidores do Yoga levam vantagens nestes dois dias, e tentam praticar a meditação profunda. Os Vaishnavas tratam os dias de Ekadasi como um dia muito sagrado, e observam jejum de grãos nestes dias.


Além de tudo isso, há uma necessidade de dar ao sistema psicológico algum descanso de vez em quando. Ele beneficia-se pelo fato de se comer pouco uma vez ou outra. Existem irregularidades que podem durar quatorze dias, mas que se corrigem num dia como o do Ekadasi. Deste modo, observar o Ekadasi possui muitas vantagens, físicas, astrais e espirituais, e porque neste dia há uma conexão com o relacionamento da mente com sua morada, junto com a Lua, então seremos de forma muito transcendental beneficiados em nossa meditação e contemplação; transcendental porque não se pode saber disso de forma consciente. Mas podemos sentir isso pelo simples fato de observarmos o Ekadasi. Na Índia, tudo possui uma interpretação espiritual. Cada rio é uma Deidade. Cada montanha é um Deus. Tudo é sagrado, e dedicado ao Divino. Tudo é presidido por uma deidade em particular: Gramdevata, Grihadevata, etc. Deus está em todo o lugar. A idéia por detrás de tudo isso é que nos temos o sentimento da presença de Deus em tudo e em todos. No espaço e no tempo, em tudo há Deus. O tempo é Deus. As direções são Deus. Assim, cada objeto torna-se uma incorporação de Deus. O dia de Ekadasi na India é um dia de iluminação religiosa, o qual é profundamente significante na vida.

SWAMI KRISHNANANDA (discipulo de Swami Sivananda)

As 7 bençãos do casamento Hindu


A cerimônia hindu, um rito conhecido como Samskara, tem muitos componentes e é muito bonito, especial e recheado de encantamentos, bençãos sânscritas e rituais milenares. Na Índia ele pode durar semanas ou dias, enquanto que no Ocidente ele dura apenas 2 horas.


Um aspecto importante da cerimonia Hindu é acender um fogo sagrado, criado a partir de ghee (uma espécie de manteiga) e fios de lã, para evocar o deus Agni (Fogo), para testemunhar a cerimonia.


O ponto alto é Saptapadi, também chamado de "Os sete passos". Tradicionalmente o sari da noiva é amarrado ao Kurta do noivo, ou um véu deve ser amarrado do ombro do noivo ao sari da noiva.


Ele lidera, com os dedos mínimos unidos, os sete passos ao redor do fogo, enquanto o sacerdote recita 7 bençãos ou votos para um casamento forte. Enquanto andam ao redor do fogo, os noivos concordam com os votos. A cada passo, eles jogam pequenas porções de arroz no fogo, representando prosperidade em sua nova vida juntos. Essa é considerada a parte mais importante da cerimônia, e sela a união para sempre.


As sete bençãos são as seguintes:
1. Que esse casal seja abençoado com a abundância de recursos e conforto, e se ajudem em todos os sentidos.
2. Que esse casal seja forte e que se complementem.
3. Que esse casal seja abençoado com prosperidade e riquezas em todos os níveis.
4. Que esse casal seja eternamente feliz.
5. Que esse casal seja abençoado com uma vida em família harmoniosa.
6. Que esse casal viva em perfeita harmonia, verdadeiros aos seus valores pessoais e às promessas em comum.
7. Que esse casal sempre seja o melhor dos amigos.


Uma coisa que eu aprecio muito na cerimonia hindu é que a noiva e o noivo sobem ao altar como o Deus e a Deusa na forma humana. Em muitas partes da Índia a noiva é considerada Lakshmi, Deusa da Fortuna, e o noivo é seu consorte Vishnu, o Grande Mantenedor.


E é exatamente assim que os noivos devem se sentir ao trocar os votos: um casal divino!


(http://hinduism.about.com/od/matrimonial1/a/7blessings.htm?nl=1)


sexta-feira, dezembro 07, 2007

Devi, a Reluzente


Quando os deuses celestiais caíram exauridos após a batalha com os demônios o rei Mahishasura com sua natureza bondosa aproveitou a oportunidade para reunir um grande exercito e se autodeclarar o senhor dos céus, o governante do universo.


Essa blasfêmia chegou aos ouvidos de Vishnu que muito zangado emitiu uma forte luz de sua testa, Shiva também se zangou e ao descender de seu estado sublime de meditação emitiu um forte raio de luz ofuscante na mesma direção do raio de Vishnu. Brahma, Indra e outros deuses poderosos fizeram o mesmo emitindo raios de luz e todos esses raios se juntaram em um mesmo ponto e aos poucos a concentração abrasante das luzes assumiu a forma de uma mulher. A luz de Shiva formou o seu rosto, de Yama seu cabelo, de Vishnu seus braços, de Chandra seus seios, de Indra sua cintura, de Varuna suas coxas, da Terra seus quadris, de Brahma seus pés, de Agni, o deus do fogo, os Seus três olhos. Assim todos os deuses contribuíram com seus poderes para manifestar a auspiciosa Devi, a grande deusa Mãe. (o nome Devi deriva-se da raiz sânscrita divi que significa brilhar, assim Devi significa a reluzente).


Os imortais fizerem suas preces e a adoraram com louvores, ornamentos e armas. Shiva lhe deu um tridente, com o seu próprio. Vishnu um disco poderoso. Indra um raio. Surya, o deus do sol, lhe concedeu raios em todos os poros de sua pele e Varuna o deus do oceano, lhe presenteou com brincos, braceletes, e uma coroa de jóias divina e uma guirlanda de lótus que jamais murcha. Os deuses gritaram em uníssono, que a vitória seja da Mãe. No momento que os batalhões de demônios se aproximavam rufando seus tambores, em meio aos gritos de batalha, e ao soar das conchas. Devi era de uma estatura enorme e os demônios marchavam diretamente para Ela e ao se aproximarem atacaram-na de todos os lados, com flechas, macas, espadas e lanças. Devi emitia um som ensurdecedor urrando e rindo um sorriso aterrador e desafiante. Os dez braços dEla giravam de uma forma alternada esmagando assim as armas dos demônios e os arremessando contra seus pares. De uma só vez Ela levantava dezenas de demônios e os matava com Sua espada. Outros Ela nem se dignava levantar, paralizando-os com o tremendo barulho de Seus sinos esmagando-os após com sua maça. Quando Ela lutou com o demônio Raktabhija a terrível Mãe deusa se defrontou com vários problemas. Esse demônio tinha poderes que lhe permitiam criar novos demônios a partir de seu próprio sangue. Assim quando a deusa o feria cada gota de sangue que pingava no chão imediatamente brotava outro demônio plenamente desenvolvido. Mas no final a Mãe o sobrepujou, levantando Raktabhija e evitando que as gotas de sangue caíssem no chão, bebendo seu sangue. Esmagou-o entre seus dentes e o engoliu. Houve outro demônio que tentou sobrepujar a deusa com seus poderes mágicos. Sempre que estava ameaçado ele mudava sua forma e sua cor, porem quem pode escapar da grande Mãe? Pego pelo laço dEla cuspindo sangue o demônio foi capturado pela Devi e como uma criança que puxa um trem de brinquedo Ela o arrastou pelo campo de batalha onde já havia muitos e muitos demônios partidos ao meio pela afiada lâmina de sua espada. Agarrando alguns elefantes com uma mão, Devi jogava-os para dentro de sua boca juntamente com os demônios condutores. E assim Ela furiosamente os esmagava com seus dentes. Ela agarrou um dos demônios pelo cabelo e outro pelo pescoço, o primeiro era esmagado pelo peso de Seu pé e o outro com o Seu corpo. A presença devastadora da Mãe preenchia até mesmo as alturas do céu. Nuvens negras cobriam o local enquanto relâmpagos atemorizantes iluminavam as formas horripilantes em terra. Lá se via milhares de demônios, sem braços, sem pernas, dilacerados e cortados ao meio.


Quando Mahishasura, o rei dos demônios, viu que seu exército havia sido devastado pelos golpes da assombrosa Deusa Mãe, ele foi tomado por uma fúria devastadora. Seu corpo se expandiu assumindo a forma de um búfalo gigantesco e aterrador. Ele estava envenenado com sua própria força e valor e por isso rugia de maneira desafiadora e assim investiu contra Devi.


A Deusa gritou, ó touro você pode berrar agora, mas quando Eu o destruir, em breve, serão os deuses que irão bradar em vez de você. A terra começou a tremer com as batidas dos pés da Deusa. Mahishasura lutava com todas suas forcas e poder, mas não conseguia sobrepujar Devi. Por isso ao final ele apelou ao senso de justiça dEla dizendo que não era justo ele estar lutando com alguém tão mais poderosa. Ele alegava que Ela foi ajudada por inúmeras deusas como Durga, Kali, Chamunda, Ambhika e outros enquanto ele, Mahishasura estava só na batalha. Ela disse, eu estou sozinha, você esta vendo alguém ao meu lado? Você não percebe, ó vilão que essas deusas são apenas diferentes aspectos do meu poder e que depois retornarão a Mim. Aqui estou apenas eu mesma. Não recue, defenda-se.


E assim a selvagem batalha continuou e o demônio gigante atacou a deusa Mãe com chuvas de flechas. Ele girava discos, e brandia a maça e o bastão. Mas tudo era em vão. Ele foi morto com a lança da Devi. Assim liberando aquela alma de seu corpo e mente de natureza maligna.


As nuvens de poeira carregavam o forte odor de carne putrefata e pele chamuscadas para o horizonte que se mostrava com um forte tom vermelho sangue. Os demônios estavam mortos e o sangue deles se acumulava em poças em volta das carcaças dos elefantes e dos cavalos. Ainda insistiam em lutar contra Devi apenas alguns demônios sem cabeça. A batalha havia terminado bem como os estridentes gritos, agora se ouviam apenas os uivos dos chacais e das hienas. Nada mais havia para se matar, porém a Mãe em sua forma de Kali totalmente intoxicada pelo sangue que bebera continuava a carnificina esmagando e dilacerando os corpos já mortos dos demônios. Assim a celebração que já havia começado entre os deuses ao ver a cólera da Mãe, rapidamente foi se transformando em medo. Quem poderia parar a sua fúria? Apenas o grande Deus Shiva poderia executar tal tarefa. Untado de cinzas, o terceiro deus da trindade hindu, partiu para o campo de batalha e ali se deitou imóvel entre os cadáveres enquanto ao longe os deuses o observavam. Devi em sua fúria intoxicada andava em ziguezague entre os corpos e de repente ela se viu pisando em um belo corpo masculino nu e untado com cinzas brancas. Cheia de admiração Ela ficou paralisada por um instante olhando diretamente para os olhos dEle, Seu marido Shiva. Quando Ela percebeu que tocava o corpo de seu marido divino com seus pés, um ato de desrespeito impensável para uma mulher hindu, Kali estirou Sua língua envergonhada e isso pôs fim a destruição que Ela executava.


A antiga lenda de Devi, a grande deusa Mãe, tem passado de geração a geração entre os hindus que é proveniente de um livro sagrado dos shaktas tantras chamado Chandi. Embora essa narração sanguinária e sentimental seja alegórica, devemos considerar qual seu significado intrínseco para a sociedade hindu de hoje. Do ponto de vista religioso e social essa lenda reafirma o poder protetor do arquétipo da Mãe que é parte integral da vida familiar hindu. No ocidente, a mulher de família é observada primordialmente no seu papel de esposa, enquanto na Índia a mulher sempre é vista como Mãe. Mesmo a mulher solteira, sem filhos geralmente é chamada de mataji (Mãe). Isso é um gesto de respeito porque os hindus consideram a posição da Mãe como sendo suprema.


Na Índia, especialmente na Bengala, adora-se a grande Mãe com cerimônias de grande esplendor. Uma vez por ano durante o festival de outono chamado Durga puja é reencenada a história da estupenda protetora e assim juntam-se lado a lado intelectuais e analfabetos para adorar a Mãe nos templos, nos lares e nos pandals que se montam nas ruas. A grande Mãe abençoa esses esforços na forma da certeza de que todo ano o bem sempre Irá sobrepujar o mal.


Do ponto de vista filosófico, essa lenda é uma representação alegórica da guerra constante que acontece dentro de todos nós, ou seja, a batalha entre a nossa natureza divina contra a demoníaca. Na lenda da deusa Mãe cada uma de nossas paixões e vícios tem o seu demônio representativo, por exemplo, Sumbha é o demônio que corporifica a luxúria, Nisumbha a ambição e Mahisasura a ira.


Um famoso erudito indiano Sashi Bushan Das Gupta escreveu um artigo intitulado "Evolução da Adoração a Mãe na Índia". Ele disse: "Sempre que nossas paixões se vêem em perigo de serem erradicas ou anuladas, elas mudam de forma e cor e tentam escapar disfarçadas. Isso está bem ilustrado na história de alguns dos demônios que mudam de forma quando se defrontam com Shakti, poder divino. O fato é que essas nossas paixões e instintos têm raízes tão profundas em nós que na maioria das vezes parecem ser indestrutíveis, ou seja, ao pensarmos que acabamos com um de imediato vem outro substituir. Vemos isso bem ilustrado na luta da deusa com o demônio Raktabija que para cada gota de sangue caída ao chão brotava um outro demônio revigorado e feroz. É o despertar da Mãe dentro de nós ou seja termos plena consciência do poder divino trabalhando em nós que torna o homem forte e dotado do imenso poder de Deus. (Grandes mulheres da Índia pg. 80, por Svami Madhavananda e Ramesi Chandra)"


Alguns hindus falam da grande Mãe com a veemência de um filho que ameaça outra criança ao disputarem um brinquedo: "A minha Mãe vai te castigar se você não der isso para mim." Essa forte crença na Deusa que cuida das necessidades terrenas e espirituais parece ser infantil para os que vivem no mundo dos adultos dominados pela razão. Porém, se perscrutarmos com cuidado as camadas construídas pelos valores ditados pela sociedade, a maioria de nós concordará que em algum lugar no fundo de nossa alma existe uma vereda reconfortante reservada para nossa Mãe terrena bem como para nossa Mãe arquétipo. Muitos povos na história da humanidade depositaram sua crença no poder da Mãe deusa como sendo a força diretriz do universo. Svami Vivekananda ficou famoso no ocidente ao ensinar a forma mais elevada do Vedanta aham brahmasmi (Eu sou Brahmam, Eu sou Deus) é um exemplo. Não preste reverência a nenhum outro Deus exceto ao Eu que está dentro de você. Porém mesmo Svami Vivekananda em seu extremo racionalismo teve que reconhecer a Mãe Kali. Ele falou para alguns devotos de seu circulo intimo sobre sua paixão intima pela Mãe divina. O que se segue é uma transcrição de uma palestra que Svami Vivekananda proferiu para um pequeno grupo em um chalé no Thousand Island Park: "A Mãe é a primeira manifestação de poder e se considera como o ideal superior ao pai. O nome da Mãe traz a idéia de shakti, energia divina e onipotência. Para o recém nascido sua Mãe tem todo o poder e é capaz de fazer qualquer coisa. A Mãe divina é o kundalini que está adormecido dentro de nós, se não a adoramos jamais iremos nos conhecer. Os atributos da Mãe divina é misericórdia plena, poder total, e onipresença. Ela é a soma total da energia no universo. Toda e qualquer manifestação de poder no universo provém da Mãe. Ela é vida, inteligência, amor. Ela está no universo ainda que separada dele. Ela é uma pessoa que pode ser vista e conhecida. Da mesma forma que Shri Ramakrishna a viu e a conheceu. Estabelecidos na idéia dessa Mãe, qualquer coisa nos é possível. Ela responde imediatamente a nossas preces. Ela pode se mostrar a nós em qualquer forma a qualquer momento. A Mãe divina pode ter forma, rupa, e nome, (nama), ou ainda ter nome sem a forma. E a medida que nós a adoramos em seus diferentes aspectos podemos nos elevar de ser puro, ou seja sem nome nem forma... Um pedaço da Mãe, uma gota foi Krishna, outra foi Buda, outra foi Cristo. Adoração mesmo de uma centelha da Mãe no nosso lar terreno levanos a grandeza. Adore a Ela se você deseja amor e sabedoria. (Spirit Talks por Svami Vivekananda, pg. 48-49)"